O Conflito no Irão Vai Fazer Subir a Tua Prestação da Casa em Abril — Eis o Que Precisas de Saber
O conflito no Irão está a pressionar as taxas Euribor para cima. Se tens crédito à habitação a taxa variável, a tua prestação de abril vai subir. Percebe porquê e quanto.
ATUALIDADE
3/31/2026
O Conflito no Irão Vai Fazer Subir a Tua Prestação da Casa em Abril
Há uma guerra a decorrer no Médio Oriente. E mesmo que estejas do outro lado do mundo, isso pode significar que vais pagar mais pelo teu crédito à habitação este mês. Parece distante, mas a ligação é mais directa do que parece — e vale a pena perceber exactamente como funciona este mecanismo.
Do Estreito de Ormuz à tua conta bancária
No final de Fevereiro de 2026, os Estados Unidos e Israel iniciaram ataques ao Irão. Pouco depois, o Estreito de Ormuz — uma passagem estratégica no Golfo Pérsico por onde transita cerca de 20% do petróleo mundial — foi encerrado. Resultado imediato: os preços dos combustíveis dispararam.
Agora, quando o petróleo sobe, a inflação tende a acompanhar. Os bens ficam mais caros de produzir e de transportar, o custo de vida aumenta, e os bancos centrais ficam sob pressão para reagir. É aqui que entra o Banco Central Europeu (BCE).
As pressões inflacionistas resultantes do conflito fizeram subir os receios de uma alta de taxas de juro por parte do BCE. E nem foi preciso que o banco central actuasse formalmente: no mercado monetário, as taxas Euribor começaram a subir por si próprias ao longo de Março, numa tendência quase diária que não se verificava desde o final de 2025. iol
O que é a Euribor e porque é que importa?
A Euribor (Euro Interbank Offered Rate) é, em termos simples, a taxa de juro à qual os bancos europeus se emprestam dinheiro entre si. Esta taxa serve de referência para a maioria dos créditos à habitação em Portugal com taxa variável.
Existem cinco prazos diferentes de Euribor — a uma semana, a um mês, a três meses, a seis meses e a doze meses. As mais usadas nos contratos de crédito à habitação em Portugal são a de 3, 6 e 12 meses. iol
Quando a Euribor sobe, a tua prestação mensal também sobe — automaticamente, na altura em que o teu contrato é revisto. Quando desce, acontece o contrário.
Durante 2024 e grande parte de 2025, os portugueses viram as suas prestações a cair de forma consistente, depois do pico de 2023. Esse período de alívio parece agora estar a chegar ao fim.
Quanto vai subir a prestação em Abril?
Vamos aos números concretos. Tomando como exemplo um crédito de 200 mil euros com um prazo de 30 anos e um spread de 1%: iol
Euribor a 3 meses: a prestação sobe cerca de 5,92 € face ao trimestre anterior.
Euribor a 6 meses: a prestação sobe cerca de 20,11 € face ao semestre anterior.
Euribor a 12 meses: a prestação sobe cerca de 13,80 € face ao ano anterior.
Não são aumentos dramáticos para já — mas o contexto é o que realmente preocupa.
Para créditos mais pequenos, de 100 mil euros, os aumentos ficam entre os 3 e os 10 euros mensais, dependendo do prazo da Euribor. Para 50 mil euros, a subida é ainda mais residual. Mas tudo isto parte do princípio de que o BCE mantém as taxas onde estão — e esse cenário está longe de ser garantido.
O BCE vai subir as taxas de juro?
Na reunião de Março, o BCE optou por manter a taxa de depósito nos 2%, sem alterar as taxas directoras. Na altura, ainda não havia dados suficientes sobre o impacto real da subida do petróleo na inflação europeia. iol
A próxima reunião acontece a 30 de Abril. Nessa altura, o BCE já terá acesso aos dados de inflação de Março (divulgados pelo Eurostat esta semana) e até aos de Abril, que deverão ser conhecidos precisamente na manhã da reunião.
Nos mercados financeiros, há quem acredite que o BCE poderá subir as taxas até três vezes ao longo de 2026. No entanto, numa sondagem recente da Reuters, a maioria dos economistas ainda defendia que não haveria subida de juros este ano — embora mais de um terço já antecipasse pelo menos um aumento. iol
A presidente do BCE, Christine Lagarde, foi directa ao classificar a situação como um verdadeiro choque, provavelmente de magnitude superior ao que conseguimos imaginar neste momento. Palavras pesadas para uma pessoa que habitualmente comunica com muita cautela.
O paralelismo com 2022 — e o que podemos aprender com isso
Isto não é a primeira vez que um conflito externo muda as condições do crédito em Portugal. Em 2022, a invasão da Ucrânia pela Rússia criou uma crise energética semelhante. A inflação disparou, o BCE reagiu com subidas agressivas das taxas, e a Euribor passou de valores negativos para perto de 4% em menos de dois anos. Quem tinha crédito à habitação viu as suas prestações aumentar centenas de euros por mês.
O cenário actual não é idêntico, mas tem semelhanças suficientes para não ser ignorado. A diferença é que desta vez já estamos a partir de um nível de taxas mais normalizado — e que o impacto, pelo menos no imediato, é mais contido.
O que deves fazer se tens crédito à habitação?
Algumas coisas práticas a considerar:
1. Confirma quando é revisto o teu contrato. Nem toda a gente tem a revisão em Abril. Sabe exactamente quando é a tua, para não seres apanhado desprevenido.
2. Percebe qual é a tua Euribor de referência. A 3, 6 ou 12 meses? Cada uma tem dinâmicas diferentes e revisões em momentos distintos.
3. Avalia se faz sentido fixar a taxa. Com a incerteza actual, muitos bancos oferecem a possibilidade de transitar para taxa fixa. Tem custos, mas oferece previsibilidade — algo que, neste contexto, pode valer muito.
4. Cria uma almofada financeira. Mesmo que a subida deste mês seja pequena, o caminho à frente é incerto. Ter 2 a 3 meses de despesas fixas em poupança é sempre uma boa prática — e agora ainda mais.
5. Acompanha os dados de inflação. Os números que saírem esta semana vão influenciar directamente a decisão do BCE a 30 de Abril. Mantém-te informado.
A linha de fundo
Um conflito no Médio Oriente faz subir o petróleo. O petróleo faz subir a inflação. A inflação faz subir as expectativas de taxas de juro. As expectativas fazem subir a Euribor. E a Euribor faz subir a tua prestação da casa.
Este é o mecanismo de transmissão da economia global às finanças pessoais de cada um. Não é abstracto — é o que aparece na nota do banco no final do mês.
A subida de Abril ainda é modesta. Mas o que vem a seguir depende de como o conflito evolui, de como a inflação reage, e de como o BCE interpreta os dados. E nenhuma dessas variáveis está controlada.
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